Textos

Meu guardião

Quando o conheci eu estava à beira de um abismo. Abismo que eu não vi fim e pior não via volta. À minha volta era tudo trevas. Se não fossem trevas, não tinha cor. Estava determinado mesmo a terminar tudo e me jogar no abismo. Não havia porquê, não havia por quem ficar.

Em meio a tudo isso o conheci e quando estava prestes a me jogar no abismo, ouvi a sua voz me pedindo para ficar. Se não fosse por ninguém, mas pelo reconhecimento à amizade que nascia e havia em pouco tempo se tornado forte. Por sua voz, por sua amizade, abandonei a face do abismo e fiquei.

Decliquei sobre o meu guardião a minha vida, minhas vontades e expectativas. Entreguei-lhe minha liberdade e confiei a ele minha vida. Por um tempo tudo foi mágico e encantador.

Não demorou para eu notar que apesar de ter entregue tudo ao meu guardião, eu ainda trazia dúvidas comigo, que me corroíam, não me deixam prosseguir, me machucavam e me aprisionavam. Essa situação me tornava alguém mais cansado que estar diante do abismo, mas agradecia sempre ao guardião por não ter-me jogado ao abismo. Eu não podia ser feliz sem sanar as dúvidas, não podia ser feliz sem magoar a pessoa que foi o motivo de me tirar da face da morte.

Por fim, acabei sendo compreendido. O guardião não era alguém com interesses pessoais aguçados e o que mais me teve foi amor e compaixão. Vendo minhas dúvidas e confusões não hesitou em me libertar, apesar de ter todo direito sobre mim, não questionou ou reclamou esse direito. Me deixou livre para sentir e seguir por outro alguém, para me dar oportunidade de resolver minhas dúvidas de longe, longe de sua proteção e de sua tutoria.

Corri para longe do guardião. Em lágrimas e tristeza, mas o fiz. Mesmo me sentindo um traidor. Não como quem trai alguém, mas como alguém que se trai. Minhas palavras de lealdade e de entrega haviam voltado, não conseguira domar meus sentimentos a ponto de deixa-los a mercê do guardião.

Procurei sempre ter notícias de meu guardião e sempre que possível dar notícias também. Sempre falando e mostrando como estava bem. Nem sempre estava mal, mas não estava de todo bem.

Resolvi muitas de minhas dúvidas, em pouco tempo até. Coloquei pontos finais em muitas histórias. Já que estava livre para decidir e terminar, o fiz. Acabadas as dúvidas e histórias do passado era hora de continuar.

Me senti em um corpo firme, porém vazio. Me entreguei à algumas paixões vazias e agoniantes, que só me geraram dúvidas para o presente. Dúvidas, que embora me corroessem ao menos não me jogavam no abismo e foram fáceis de resolver.

Estando já forte e recuperado, senti falta do meu guardião, de seu abraço seguro, de seu sorriso caro de se arrancar, porém sincero. Mas não tinha mais como voltar ao que abandonei, ao que renunciei. Não podia me dar ao luxo de voltar e querer tudo de volta, tudo que eu não dei e tudo que não fiz. Mas assim, como outrora eu fugi do abismo por amizade, por amizade venci o meu orgulho e voltei ao meu guardião.

Posso não ser mais o que fui para ele, posso não ter mais a atenção que tive um dia, mas o acompanharei de perto, já que não tenho dúvidas, não tenho uma vida passada que me consome e clama por solução. Espero ao menos que eu seja visto novamente como alguém que sente algo ou como alguém…. Do contrário, já estarei feliz em ao menos ter um guardião e amá-lo.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: