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A previsão de tudo que eu já sei

Quando a previsão do que já sei se anuncia eu refaço toda minha agenda. Não refaço de modo a remodelar tudo e com tempos rigidamente estabelecidos. Ah isso não faço mais! Eu refaço para tempos mais espaçados com bastante espera, com um tempo tempo estimado para algo próximo de nunca mais terminar. É melhor assim, já que tudo fica incerto mesmo.

A tal previsão começa com poucas nuvens ou com um anúncio que choverá. Os automóveis, embora comandados por pessoas, andam mais devagar. Os trens ficam lentos, como se enferrujassem ao menor sinal de água. As pessoas, de algum modo e por qualquer meio de transporte, parecem procurar o mesmo destino e esses destinos incrivelmente são semelhantes ao meu. Queremos todos passar por uma única via. Ao mesmo tempo. De qualquer modo. Alguns se estressam, porque ainda não aprenderam readequar a agenda para o tempo infinito. Outros protestam em silêncio. Outros, como eu, já entenderam que quando a previsão de tudo que eu já sei é anunciada, se dispõe a mudar a vida, os próprios costumes, já que não há o que fazer.

Deste modo, quando a previsão diz que vai chover [EM SÃO PAULO], seja por meios de comunicação, seja pela janela de casa ou do trabalho (para quem dispõe dessa visão),  eu já sei que o trânsito estará lento, o transporte coletivo mais moroso e mais humanamente desaconchegante, os trens (e metrôs) terão velocidade reduzida, maior tempo de parada, maior concentração de massa humana por milímetro quadrado e menor quantidade de ar disponível para cada ser vivente em cada vagão.

Diante das previsões de tudo que eu já sei, sigo a alternativa de por em dia minhas leituras, ouvir minhas músicas preferidas e procurar situações inusitadas das quais rir. Mas já chorei de ódio. Já reclamei nos órgãos responsáveis e ainda reclamo reclamo, cada vez que isso acontece. Apenas não me desespero e deixo que a previsão de tudo que eu já sei vai acontecer estrague meu dia e os meus bons momentos.

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